Me tem só pra me ter. Talvez pra fazer ciúme naquele mundaréu de mulheres burras e bundudas que acham ele bonito de boca fechada e não dão a mínima quando ele conta deslumbrado qualquer coisa. “Você tem um charme”. Já repeti que no mundo que eu vivo ter charme não é sinônimo de beleza. E ele continua com esse mantra chato que me faz questionar minha existência e querer ter mais bunda e peito. Tudo bem. Ter charme deve ser legal. E a gente se tem só pra se ter mesmo. Quem liga.
Saio do trabalho e sentamos em qualquer lugar pra tomar uma bebida despretensiosa que jamais nos levaria pra cama. Sento na sua frente de um jeito diferente que elas sentariam. Elas o olhariam com o olhar cheio de intenções mal resolvidas. Eu não. Eu só tenho uma vontade boba de chegar o nariz no seu pescoço e sentir aquele cheiro que ele tem de roupa limpa. Ele tem um cheiro diferente. Cheiro que outro dia senti numa sessão de meias de uma loja, e fiquei igual uma idiota colocando o nariz nas prateleiras para sentir ele perto. Ele é um homem vestido com roupa que tem cheiro de menino. Isso me traz proteção e vontade de cuidar.
A gente dói junto. Dói rindo, porque é uma dor do mundo. Esquecemos rapidinho que a gente se tem pra não se ter, e se despede fingindo que amanhã a gente não se tem, tendo. Tem coisa melhor? Tem. Ter. Mas fingir é bom, fingir conforta, e tem também aquele cheiro dele que sem querer gruda.
Ele é tão bonzinho. Ele toma devagar a bebida despretensiosa de um jeito tão ingênuo. Ele é tão legal que ninguém sabe qual é a dele nem com as loiras gostosas que chegam cheias de intenções. Mas eu sei. Ele não quer ter ninguém. Ele quer ser dele. E foda-se todos os peitos e bundas do mundo. Isso tudo não passa de consequência.
Não vou mentir que me pego imaginando o dia que aquele cheiro se amarrar de vez em alguém, que não eu. E daí, vou me contentar colocando o nariz na prateleira de meias, vivendo a vidinha sem sentido numa quarta-feira à noite que ele não fala besteira, não me chama pra tomar uma água sem gás, e voltar a não suportar qualquer barulho que o meu celular faça quando estou concentrada lendo e-mails. Mas por enquanto, vou tendo sem ter, vou amando sem amar. Vou fingir que tudo teria exatamente a mesma graça se o meu coração não disparasse de um jeito acelerado e calminho quando ele me liga pra falar tudo e não dizer nada.
É isso. O que sentimos não é feio e nem bonito. É só charme.